Never Summer 100km

Never Summer 100k

Alexandre Castello Branco relata a experiência e as emoções da ultramaratona pelas montanhas do Colorado, nos EUA

 

Quando me inscrevi na ultramaratona de montanha chamada Never Summer 100km, no Colorado, EUA, sabia que teria um belo desafio pela frente. Só não sabia o tamanho da “encrenca” que estava me metendo.

 

É verdade também que eu estava indo com sangue nos olhos, já que na última ultra que havia competido fui obrigado a abandonar no km 89, com pouco mais de 14 horas de prova – e dores intensas no joelho. Foi a primeira competição que não consegui completar e isso mexeu bastante comigo. Decidi então treinar o dobro, me dedicar mais e fazer todo o esforço possível para que eu não tivesse esse sentimento de novo.

 

CHEGOU A HORA: A LARGADA

 

Então, no dia 22 de julho de 2017, às 5h30 da manhã, lá estava eu alinhado com mais 289 doidos para encarar esse desafio. Seriam 103km de corrida pelas montanhas do Colorado, com elevação mínima de 2.576m e máxima de 3.612m. A elevação média seria de 3.116m. Teríamos até 24 horas para completar o percurso e haviam alguns tempos de corte no meio do caminho. Seria minha terceira ultra de 100km e minha primeira vez correndo numa altitude dessa. Infelizmente, por causa do trabalho, não pude chegar com antecedência razoável para aclimatação. Dois dias antes da prova foi o que consegui – pouco para o condicionamento do corpo –  e rezei pelo melhor.

 

Tirando o frio que fazia na largada (algo em torno de 5 graus), comecei a prova me sentindo bem, num ritmo conservador, segundo orientações do meu coach Alexandre Ribeiro, hexacampeão mundial do Ultraman. “Guarde energias para mais tarde pois a prova é muito longa”, sempre enfatizou Ribeiro. Conforme ganhávamos altitude, o ar começou a faltar. Na primeira subida mais íngreme, a respiração já ficou ofegante, o ar não vinha, apesar das pernas estarem inteiras ainda. Ali eu vi que o dia seria longo. Enquanto isso os atletas locais subiam sem esforço, como se estivessem dando uma volta no parque. Fiquei com vontade de amarrar um corda neles pra ver se facilitava minha vida (rs).

 

VISUAL E FAMÍLIA: ÂNIMOS FUNDAMENTAIS

Após o primeiro trecho bem íngreme, chegamos num pico fantástico, com um visual de tirar o folego, literalmente. Ali me permiti pegar a Go Pro e fazer uns vídeos, já que vi uma galera fazendo o mesmo. Mas que lugar! Por alguns instantes o cansaço vai embora, mesmo que ele não demore a voltar. Guardei a câmera, como alguma coisa e começo uma descida bem técnica, onde era impossível desenvolver muita velocidade. Mas estava bom: para baixo todo santo ajuda. Desci feliz, deixando o corpo deslizar pelo terreno instável.

 

Após um tempo correndo, cheguei no primeiro ponto de hidratação, um ponto de apoio, onde havia deixado uma drop bag com comida extra, outra camisa e meias (caso necessário). Além disso, minha namorada e minha mãe estavam presentes nesse ponto, à postos pra me ajudarem com o que fosse necessário – principalmente o apoio moral e emocional. E como me ajudaram! Sentei um pouco para recarregar a mochila de hidratação e reforçar o protetor solar, já que a temperatura estava aumentando e o sol começava a castigar. Mas logo levantei (pra cadeira não ficar cada vez mais confortável e me prender pra sempre nela) pra seguir firme em busca do objetivo principal.

 

Continuei conservador, acelerando um pouco em alguns trechos e fazendo amigos, como em todas as provas desse tipo. Fiz amizade com um cara do México, com um casal de australianos e diversos americanos, muito deles moradores do Colorado mesmo. De brasileiro, só eu, então foi a prova toda falando em inglês ou espanhol. Português só com a equipe de apoio nos pontos de hidratação.

 

O TRECHO CRUCIAL E AS RECOMPENSAS NATURAIS

Quando cheguei no km 28, já sabia que havia chegado na subida mais temida da prova. Além de ser a mais íngreme, com 49,6% de inclinação, ela nos levaria ao ponto mais alto também, a 3.612m (a altura de quase cinco pedras da Gávea, apenas para situar). Quase na Lua pra mim! Quando me deparei com a subida, e percebi que nunca havia enfrentado uma tão exigente. Os atletas riam de nervoso quando olhavam a inclinação e era preciso praticamente rastejar pra subir. Era preciso manter o corpo rente ao solo, pra evitar de rolar montanha abaixo.

 

Demorei quase 2h para subir míseros 2km desse trecho mais íngreme e técnico. Havia um cara com um tambor lá no topo, recebendo os “sobreviventes”. Que alívio chegar ali e me deparar com o visual de toda cadeia de montanhas exuberantes que nos cercava. Precisei sentar um pouco pra absorver toda aquela imponência da natureza, recuperar o ar (que teimava em não vir) e me nutrir. Psicologicamente, tinha vencido uma barreira importante. A subida mais íngreme e o pico mais alto da prova já estavam pra trás, então teoricamente o resto seria mais “tranquilo”.

 

Fui seguindo, passando por umas paisagens surreais. Por incrível que pareça, estava me sentindo muito bem. Achei bem difícil manter um ritmo constante, rápido, correndo a mais de 3.000m. Simplesmente não estamos acostumados a correr nessas condições. Bom, pelo menos não eu. Já sabia também que se completasse a prova, chegaria de madrugada (tinha feito os cálculos meses antes), mas já tinha me planejado também para tentar ir o mais rápido possível, sem quebrar, pra evitar ter que correr muitas horas no escuro.

 

SAI O SOL (E O CALOR), ENTRA A NOITE (COM O FRIO, MEDOS E PERIGOS)

 

Começou a escurecer e com isso veio o frio também. Larguei com 5 graus, corri com 35 graus durante o dia e agora a temperatura começava a despencar. Coloquei minha headlamp (lanterna de cabeça) e fui em frente. No site da prova há orientações sobre encontro com ursos, alces e outros animais.

Confesso que uma parte de mim queria muito ver um urso, mas naquele momento, no escuro, mudei de pouco de opinião. Em alguns momentos de escuridão quase total, no meio da floresta, só com a minha lanterna de cabeça acesa, escutei barulhos muito altos de alces perto de mim, mas não conseguia ver onde estavam exatamente. Na minha cabeça, tinha certeza que eles sabiam direitinho onde EU estava. Foi uma sensação estranha, mas que no final das contas ajudou a acelerar o meu ritmo.

 

Noutro posto de hidratação, que tinha até bacon sendo oferecido aos atletas (que educadamente recusei), apoiei meus bastões numa mesa para recarregar minhas garrafas de água. Mas quando fui seguir, sem querer peguei os bastões de outra pessoa! Só fui perceber uns 5 km depois, e nada nesse mundo me faria voltar tudo pra procurar o dono. “Ah, em algum momento esse cara vai me alcançar e aí a gente faz a troca de novo”, pensava. Só que isso nunca aconteceu!

 

A EMOÇÃO DA CONQUISTA PESSOAL

 

No último ponto de apoio, minha mãe a minha namorada já estavam lá me esperando, passando frio, preocupadas comigo. Não sabiam se eu tinha sido engolido por um urso, desistido por cãimbra ou me perdido. Há mais de 7 horas que não tinham notícias minhas. Como era bom vê-las! Coloquei minhas luvas – o frio estava intenso já, comi a melhor quesadilha do universo e segui em frente. No final das contas, nos últimos 20 km, fui puxando o ritmo de um grupo com meus novos melhores amigos e fomos forçando e subindo como se a prova estivesse no começo! Mas eu estava inteiro, muito bem, sem dores e sem lesão. Parecia que estava anestesiado, numa zona paralela. E claro, só queria chegar logo, descansar e tomar um banho quente.

 

Quando cruzei a linha de chegada, de madrugada, tinha marcado 22h05 de prova. Nunca imaginei que fosse possível correr esse tempo todo pelas montanhas e ainda chegar vivo, íntegro, pra contar. Que sentimento único, que jornada! Eu tinha vingado a ultra maratona que não consegui completar e de quebra ainda fiz um tempo que me classificava para o sorteio de uma das ultramaratonas mais tradicionais e duras do mundo, a Western States Endurance Race, com 168km de extensão.

 

E agora? Este já é papo para um próximo relato.

Blog Comments

Muito legal o relato!! Este desafio sem dúvida é para poucos!
Parabéns!

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